Segue um trecho da coluna do Hélio Schwartsman sobre o livro God Delusion, de Richard Dawkins, na Folha. Vale ler na íntegra.
"Por que os textos usados nas escolas dominicais podem ter caráter doutrinário e uma defesa do ateísmo não? Por que, pergunta-se o autor, devemos aceitar a convenção social segundo as quais idéias religiosas devem ser respeitadas? Uma idéia idiota é sempre uma idéia idiota, não importando o campo semântico em que seja proferida. Por que podemos afirmar sem nenhum problema que determinada tese científica, econômica, ou jurídica é imbecil, mas, se ousamos dizer o mesmo em relação a uma "verdade religiosa", somos tachados de intolerantes e quem sabe até processados?
Se alguém nos dissesse acreditar que brotou de uma árvore e que sempre que segura sua caneta ela se transforma num coelho voador, teríamos boas razões para duvidar da sanidade desta pessoa. Por que então não tratamos como louco o católico que afirma que Jesus nasceu sem pai biológico, de uma mãe virgem e que, toda vez que se celebra uma missa, o vinho se torna sangue e um tipo esquisito de biscoito se converte no corpo do homem?"
Coerência deveria ser uma prerrogativa para o convívio social, não?
O maior preconceito religioso de todos é ironicamente aquele voltado ao ateu, sujeito que apenas se abstém de toda essa bagunça.
Nunca vi um ateu fanático, capaz de engalfinhar-se com um devoto de alguma religião. São sujeitos conformados, pacíficos, quase apáticos, cujos ataques por diferença ideológica não passam de uma tirada sarcástica aqui ou uma cara de desgosto ali.
Entretanto, na cabeça maluca dos religiosos, pior do que acreditar em um outro deus, é acreditar em nenhum.
Fala sério: o sujeito da religião ao lado prega sua danação eterna no inferno por não compartilhar de sua crença, mas você tem mais ódio do ateu - alguém que não quer te ver em agonia, sendo sodomizado pelo cramunhão -, cujo crime consiste na crença (pessoal, veja bem) da não-existência de um deus ou de um paraíso.
12.1.07
deixa o homem não acreditar
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fernando araújo
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Marcadores: ateísmo, colunas, hélio schwartsman, livros, religião, richard dickens
11.1.07
lamarckismo
Quando essa cambada de jornalistas preguiçosos parará de hypar o lixo do Second Life? Será que ninguém percebe que se trata de UM MALDITO CHAT?!? São as mesmas mentiras, as mesmas tentativas frustradas de ser quem você não é, a mesma falta do que fazer, a mesma covardia de encarar o mundo real à sua volta, mas ainda com um agravante: CUSTA DINHEIRO.
Chat do UOL / IRC = coisa de nerd.
Second Life? Ah, coisa avant-garde, para trendsetters, donos de uma nova linguagem, encantados pelo advento de uma vida virtual paralela à real. Gente à frente da curva.
Potencialmente, nossa geração vindoura será de idiotas, atrofiados, paranóicos. Gente sem iniciativa, incapaz de pôr a mão na massa ou até mesmo de reproduzir-se. Gente sem capacidade de agir em um mundo físico que deixaria de importar.
Sorte a nossa que ainda existem pessoas para enterrar cabeças dos nerds na privada. Louvados sejam os jocks/bullies, guerrilheiros dispostos a impedir o potencial estabelecimento dessa realidade alternativa como status quo. Enquanto eles existirem, estaremos a salvo.
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Marcadores: cultura pop, internet, second life, sociedade
10.1.07
falou e disse
"Those works created from solitude and from pure and authentic creative impulses - where the worries of competition, acclaim and social promotion do not interfere - are, because of these very facts, more precious than the productions of professions. After a certain familiarity with these flourishings of an exalted feverishness, lived so fully and so intensely by their authors, we cannot avoid the feeling that in relation to these works, cultural art in its entirety appears to be the game of a futile society, a fallacious parade."
Jean Dubuffet
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fernando araújo
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9.1.07
entubada
A Cicarelli fornicou em espaço público. Não houve invasão de privacidade. Não tinha um paparazzi subindo em muros e tirando fotos da moça fazendo topless na própria piscina ou algo que o valha. Simplesmente alguém estava lá, na praia, e registrou a moça e o seu namorado fazendo a sacanagem.
Se alguém quiser tirar proveito comercial do registro, Cica, manda ver no processo - ou faça um acordo e encha o bolso. Agora, querer impedir a propagação do material pela internet bloqueando indiscriminadamente o acesso ao YouTube é uma piada. Trata-se de uma ofensa à liberdade de expressão e ao direito (agora virtual) de ir e vir de TODOS. E o pior é que não funcionará - existem novecentos sites de vídeo, blogs e e-mails com o arquivo da sacanagem, sem vínculos ao YouTube.
Relaxa e goza, Cica. Pelo menos, você estava bem naquele biquini.
tirei férias
Eu merecia, vai.
Por sinal, talvez tenha largado o blog durante esse período para ter alguma prova da minha viagem à praia. Certamente não seria o meu bronzeado - não pego cor nem por decreto.
P.S.: feliz 2007?!?
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Marcadores: férias, nota ao leitor, viagem
18.12.06
idéias que gostaria de ter tido antes, vol. 1
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fernando araújo
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Marcadores: boas idéias, música, vídeos
13.12.06
complexo de viralata
Jens Lekman teve noite de Morrissey aqui em São Paulo. Fila antes da hora da entrada, capa do Caderno 2, adoração irrestrita de gente que nunca ouviu falar do sujeito.
Não tinha idéia da comoção que esse show causaria. E aposto que ele também não. Mas sei que a grife Suécia vende bem.
Existe um glamour acerca da Escandinávia e um senso implícito de inferioridade nossa ante os caras. Como países tão pequenos podem ter tantos artistas relevantes, tantas histórias para contar e tantas empresas bem-sucedidas mundialmente?
O sr. Lekman é bom, muito bom mesmo. Mas não acho que o fenômeno de ontem tenha decorrido de seu mérito artístico. Faltava senso crítico na platéia, sobrava idolatria.
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11.12.06
a ironia morreu na chopperia liberdade
Na minha cabeça, a ironia precisa ter algum fundamento, não deve existir por si só. Ela precisa de um objetivo para ser empregada: um "larga de ser estúpido", um "notem o absurdo dessa situação" ou um "só vocês três precisam entender isso".
Isso, entretanto, é conversa para outro momento.
Hoje, friso a definição central da ironia. Para mim, irônicas são as palavras ou ações das quais o sentido figurado é completamente oposto ao sentido próprio. Quando o primeiro não é oposto ao último, não há ironia, mas apenas uma constatação da realidade.
Não há um pingo de ironia nos indies que cantam sertanejo ou pagode na Chopperia Liberdade, para depois falarem mal ou agirem com preconceito ante outros gêneros. Não há um pingo de ironia em tocar Guns n' Roses na pista, porque "é engraçado" - talvez tenha sido, por 2 segundos, 5 anos atrás. Não há um pingo de ironia em fazer uma produção visual elaborada, com maquiagem, cabelo, roupas e acessórios mil, para depois criticar mauricinhos.
O que há é vergonha. Ponto. Normalmente, coletiva. No fundo, todos gostam das mesmas coisas vergonhosas - as músicas bregas, o visual de produção meticulosa, todas aquelas coisas tão fáceis de serem criticadas -, mas escondem-se atrás da ironia, em um grande acordo tácito de negação.
Meu alerta de tema recorrente (mas coerente) está apitando, mas, novamente, como vivemos de acordo com a aprovação alheia, não? De onde vem tamanha dificuldade em assumir o que somos? De onde vem tamanha capacidade de conviver com paranóia e fingimento para vendermos um gosto fictício que agrada os nossos amigos? Por isso, a ironia é uma fuga fácil, rápida e indolor. Podemos baixar a guarda e sermos um pouco do que realmente somos.
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Marcadores: cultura popular, existência, ironia
10.12.06
o que aprendi hoje
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7.12.06
look who's got a website
Não gosto do Ryan Adams, mas sou obrigado a assumir que o homem é um gênio.
Liguem as caixas de som e visitem a seção da rádio - o ócio criativo acaba de ser redefinido.
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fernando araújo
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Marcadores: bizarrices, música, ryan adams
6.12.06
fuém fuém
2007 reserva uma série de lançamentos musicais de peso. Da primeira fornada, já é possível ouvir o novo disco do Bloc Party, devidamente vazado por toda a internet, com 5 meses de antecedência (isso TEM que ser um recorde - existe alguém registrando esse tipo de estatística?).
Então...
Hmmmm...
É impressão somente minha ou o disco é bem fraquinho, hein?
Sua segunda metade, especialmente, é anêmica. Tempo vagaroso, elementos eletrônicos de mau gosto e vocal mais soul, sempre com 3 minutos iniciais que chegam a lugar nenhum. Maturidade, my ass.
Sorte que ainda são muitos os lançamentos do ano. Eles tirarão esse gosto amargo da minha boca. Não acredito em presságios, somente em fatos.
Fato: sei que, do outro lado do Atlântico, a voz mais esganiçada do show business está prestes a irritar ainda mais gente. Quem foi aos shows recentes do Crap Your Hands Say Yeah, disse que as músicas novas são fabulosas.
Não tem erro. Agora, é esperar para ouvir o tal Some Loud Thunder.
Nota do editor:
- PSIU!!! Você já ouviu várias músicas novas do Clap Your Hands Say Yeah.
- Sério? Não me lembro disso. Foram tão insignificantes assim?
- Não sei se "insignificantes" seria um bom adjetivo. Mais para ruins mesmo. Mas aposto que muita gente gostará da forma como eles abraçaram o folk e rejeitaram a estética rock.
- As pessoas adoram qualquer coisa sob o rótulo folk. Senso crítico, be damned.
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fernando araújo
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