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2.2.07

bratwurst

O Senhor dos Anéis é um livro grande. Um cartapácio, deveras. Quantas são as páginas, uma mil e poucas?

O tal Tolkien devia ter muita história para contar mesmo - quase no nível de um assistente pessoal do Michael Jackson, após 25 anos de convivência com o artista do milênio, na Terra do Nunca. Não dá para deduzir outra coisa quando analisamos sua obra e vemos o festival de romances de duas resmas.

Mas a superfície de contador de história compulsivo, desesperado por vazão dos inúmeros contos que habitavam sua mente, não procede. Tolkien era um grande trapaceiro, enchedor profissional de bratwurst.

A evidência que tive: O Senhor dos Anéis. Não passa de longo, longo, longo e pretensioso livro de aventuras gastronômicas por vinículas francesas. Ruim, ainda por cima. O narrador arregimenta um sem-número de adjetivos esdrúxulos para descrever comida e paisagens, e deixa o enredo em segundo plano. A tal variedade de adjetivos não denota riqueza na narrativa - trata-se apenas de um recurso estético para descrever os mesmos seis atributos, sem repetir palavras. Isso para não falar do péssimo final que não acaba.

Poucas páginas bastaram para compreender que as montanhas eram imponentes, homéricas e altaneiras; o vento, gelado, cortante e impiedoso; as lembas, deliciosas, nutritivas e preciosas - o que vinha ao caso, já que, TODA MALDITA NOITE, os hobbits comiam porções ralas, escassas e miúdas, sem no entanto perderem as esperanças, pois sonhavam, TODA MALDITA NOITE, com mesas fartas, opulentas e nababescas, cheias de pratos saborosos, suculentos e deleitosos, descritos de forma barroca, rebuscada e pormenorizada.

Mil páginas do parágrafo acima alçaram O Senhor dos Anéis aos títulos de livro mais amado da Grã-Bretanha de todos os tempos e de um dos 100 melhores romances da língua inglesa dos últimos 84 anos. Nada mal para uma história que precisaria de 150 páginas, com detalhes.

Mas por que tamanha enrolação?

Para mim, Tolkien queria fazer volume e impressionar com o tamanho do livro, para que as pessoas acreditassem que se tratava de um épico.Bratwurst. Parece que deu certo.

E desde quando ser épico é uma virtude?!?

Triste pensar que o tempo dispendido nesse embuste de literatura gastronômica não volta mais. Pior então pensar que fui, masoquista, até o final, como uma mariposa que bate sua cabeça contra a lâmpada uma, duas, cem, mil vezes, até a morte anunciada.

11.12.06

a ironia morreu na chopperia liberdade

Na minha cabeça, a ironia precisa ter algum fundamento, não deve existir por si só. Ela precisa de um objetivo para ser empregada: um "larga de ser estúpido", um "notem o absurdo dessa situação" ou um "só vocês três precisam entender isso".

Isso, entretanto, é conversa para outro momento.

Hoje, friso a definição central da ironia. Para mim, irônicas são as palavras ou ações das quais o sentido figurado é completamente oposto ao sentido próprio. Quando o primeiro não é oposto ao último, não há ironia, mas apenas uma constatação da realidade.

Não há um pingo de ironia nos indies que cantam sertanejo ou pagode na Chopperia Liberdade, para depois falarem mal ou agirem com preconceito ante outros gêneros. Não há um pingo de ironia em tocar Guns n' Roses na pista, porque "é engraçado" - talvez tenha sido, por 2 segundos, 5 anos atrás. Não há um pingo de ironia em fazer uma produção visual elaborada, com maquiagem, cabelo, roupas e acessórios mil, para depois criticar mauricinhos.

O que há é vergonha. Ponto. Normalmente, coletiva. No fundo, todos gostam das mesmas coisas vergonhosas - as músicas bregas, o visual de produção meticulosa, todas aquelas coisas tão fáceis de serem criticadas -, mas escondem-se atrás da ironia, em um grande acordo tácito de negação.

Meu alerta de tema recorrente (mas coerente) está apitando, mas, novamente, como vivemos de acordo com a aprovação alheia, não? De onde vem tamanha dificuldade em assumir o que somos? De onde vem tamanha capacidade de conviver com paranóia e fingimento para vendermos um gosto fictício que agrada os nossos amigos? Por isso, a ironia é uma fuga fácil, rápida e indolor. Podemos baixar a guarda e sermos um pouco do que realmente somos.

1.11.06

the begging crashers

Eu sei que álcool gratuito é sensacional, ainda mais champagne, mas fico chocado com o tipo de humilhação pela qual as pessoas passam para receberem um convite ou entrarem em uma festa com boca livre.

Não tomo álcool pelo gosto. Tomo pelo seu efeito mesmo. Gosto por gosto, prefiro um suquinho. De acerola, provavelmente.

Para chegar ao efeito desejado do álcool, não é necessário gastar muito. Vodka dá conta do recado, por um preço bem justo. Não precisa ser Absolut. Basta não intoxicar.

Por que tanto esforço então? Busca pelo privilégio como auto-afirmação?

"Nossa, estou bebendo de graça, em uma festa exclusiva... Até que não sou tão loser assim".

Claro, os anos de politicagem, a média com as PRs da cidade, a ligação coincidente à data do evento para alguém da organização e os inúmeros "pô, pensei que fossemos amigos" são os típicos vestígios de uma pessoa vitoriosa na vida.

11.10.06

a grama do vizinho é sempre mais verde

Curioso notar como ditados contam sobre a essência de um povo. Para um estabelecer-se em uma sociedade, certamente é porque foi usado e apropriado por um sem-número de vezes, graças à relevância de seus significado e poder de síntese. De fato, existia um desejo coletivo por comunicar a mensagem.

Se pararmos para pensar, é difícil imaginar um índice tão preciso, espontâneo e sem vícios para qualificar as características de um povo.

O melhor exemplo que conheço é o dos americanos. O tão falado "american way of life", de fato, é falado em pérolas como:

"No guts, no glory";
"Don't talk the talk, unless you can walk the walk";
"Actions do speak louder than words";
"Don't ask the question, unless you really want to know to truth";
"If you're going to do it, do it well";
"Anything is possible";
"Success is the easy way out"...

... E essas são somente lembranças superficiais minhas.

Claro, soam babacas para nós, brasileiros, mas admito meu respeito por uma cultura que legitimamente prega isso. São criações e, especialmente, reproduções genuinamente geradas pelo povo.

O americano comum possui uma postura distinta à do brasileiro comum. Os caras soltam um "God Bless America" com a boca cheia; quando ouço frase análoga referindo-se ao Brasil, o ponteiro do meu cinismo carimba o talo.

Sou eu quem estou errado ou é a história de nosso povo/país que justifica tal comportamento?