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6.8.07

ácido lático

- "Cansaço por viver"?... Como assim? A fadiga é para agentes, heróis, flechas de convicção. O fardo da indefinição, inseparável às ações, é o que custa a ser suportado; a reação é apenas uma, simples, limpa e elementar.

- Mas a aceitação do absurdo da vida é um esforço calado e imóvel. Ela consome o vigor, mas de pouco em pouco, impedindo a dor de vir à tona, certeira, pela primeira vez.

- E como seria sentir algo assim, tão intenso em sua incompreensibilidade?

- Por que a curiosidade? Deixe essas tangentes de lado e atenha-se mais à sobrevivência, enquanto ainda a tem como opção. Que tipo de lunático arremessaria o próprio corpo contra o colapso? A caimbra está logo a frente, conveniente, bastará reagir de acordo.

1.8.07

cristalização

Ando em busca de um pouco de euforia. Por que ela se esconde tanto, hoje em dia? Na infância, estava sempre lá, pronta para emergir à primeira chance - chutando uma lata, correndo com o cachorro, fazendo uma barraca de cobertores na sala, subindo em uma árvore. Bastavam movimentos bruscos do corpo, desafios às regras e besteiras ditas.

Na adolescência, a euforia afunilou-se um pouco, escorrendo para a descoberta da música própria, que fazia sentido para você e mais ninguém, e as primeiros experiências com garotas, claro. A música era uma satisfação artística, a identificação de si próprio na obra de estranhos; com as garotas, a satisfação era fisiológica mesmo, uma solução à angústia do próprio corpo. Como ambas as novidades era vividas de forma intensa, implacável! O coração palpitava, forte, alimentando um cérebro que não largava o osso - o mesmo disco era ouvido por um ano, todas as noites, com encarte na mão; qualquer forma de contato na curva de relacionamento com uma garota, do primeiro "oi" ao primeiro beijo, era o ápice do dia.

Imagino que cada um tenha o próprio pretexto para a euforia. Olhando para trás, percebo que os meus momentos eufóricos eram descobertas sensoriais, bens que se rarefazem no decorrer dos anos, quando o mundo, as pessoas, o próprio corpo e a personalidade tornam-se velhos conhecidos. Tudo é colocado em gavetas, tudo é preconcepção, tudo é reação. Como seria possível encontrar essa descoberta sensorial, hoje, na vida que levo?

A arte ainda me proporciona descobertas sensoriais, mas de forma cada vez mais escassa. Muitos entretanto conseguem extrair muito dela, quase como se por oxigenação. Parecem-me seres iluminados, em consonância com outra frequência à minha - se não sinto isso de forma natural, que pelo menos me esforce em dobro!

Existem também as drogas: não as consumo, mas parece que elas dão conta do recado para quem o faz. Parando para pensar, são atalhos de um mesmo processo, pois mudam a percepção das coisas e, por consequência, geram picos de euforia, sem a angústia dessa procura infrutífera e existencial por momentos reais que inspirem o mesmo estado. Uma euforia Nissin Miojo, instantânea, embalada e encontrada no mercado - basta adicionar água.

Verei uns filmes do Bergman no final de semana para ver se me inspiro a perseguir mais a arte e ser um pouco menos cínico; caso os planos dêem errado, fumo crack.

31.5.07

uma carta aos fernandos que são araújos

Resolvo pesquisar o meu nome no Google e acabo em centenas de outros Fernandos que são Araújos. Um é ministro das Relações Exteriores; outro, violinista; o restante divide-se entre pilotos, físicos, tenistas, militares, padres. Muitos de Portugal.

Onde será que fico em meio a tantos homônimos? Certamente não sou o Fernando Araújo mais renomado, brilhante ou engraçado. Melhor não pensar muito nisso...

E o nome em comum, implica em similaridades entre nós? Afinal, fomos tratados e dirigidos sempre pelo mesmo código fonético, durante anos e anos. Vocês representam a descrição sintética de quem sou, o título pelo qual sou conhecido, a minha forma simbólica. Certamente temos peculiaridades somente nossas, esculpidas pelo tal poder da palavra - talvez os Fernandos Araújos sejam notórios estaladores de dedos ou tranquem todas as portas que encontrem no caminho.

Não nego o meu egocentrismo em achar que sou a matriz de tudo, e vocês, realidades alternativas, tangentes de quem sou. Partiram de um mesmo ponto de partida, o nome, mas trilharam seus próprios caminhos de sucessos e fracassos, uma encruzilhada por vez: local de nascimento, família, escola... Uma pausa para observar um pássaro e, pronto, surge o Fernando Araújo padre; um embarque impaciente naquele ônibus lotado e, bingo, nasce o Fernando Araújo banqueiro.

Se você, Fernando que é Araújo, estiver lendo essa carta porque também buscou saciar sua curiosidade no Google, fico feliz. Espero que a vida venha tratando-lhe bem. Suas felicidades realizadas são a minha em potencial. E melhor que o meu nome seja uma benção, não uma maldição. Um tanto idiota, claro, mas olha quanta gente por aí que se acha grande coisa por dividir o signo com algum global. Um nome tem que ter mais significado do que isso.

7.3.07

biscoito da sorte?

Como, se quando o mordi, o maldito partiu em lascas afiadas? Agora, estou com um corte logo abaixo da língua, daqueles que levam meses para sarar.

Deveria comemorar por ele ter vindo com duas mensagens, ao invés de uma? Abriria mão dessa "sorte" para não ter o azar acima. Ainda mais quando as mensagens são medíocres desse jeito, ó:

- Não tente tirar a lua do fundo do mar.
- Conquiste uma clareza suave através da docilidade, encontrando seu lugar no mundo.

Do alto da minha generosidade, ofereço essas lições de sabedoria para quem estiver interessado. Podem ficar com elas. Vou me restringir à novela das oito para saber como devo encarar a vida.

11.12.06

a ironia morreu na chopperia liberdade

Na minha cabeça, a ironia precisa ter algum fundamento, não deve existir por si só. Ela precisa de um objetivo para ser empregada: um "larga de ser estúpido", um "notem o absurdo dessa situação" ou um "só vocês três precisam entender isso".

Isso, entretanto, é conversa para outro momento.

Hoje, friso a definição central da ironia. Para mim, irônicas são as palavras ou ações das quais o sentido figurado é completamente oposto ao sentido próprio. Quando o primeiro não é oposto ao último, não há ironia, mas apenas uma constatação da realidade.

Não há um pingo de ironia nos indies que cantam sertanejo ou pagode na Chopperia Liberdade, para depois falarem mal ou agirem com preconceito ante outros gêneros. Não há um pingo de ironia em tocar Guns n' Roses na pista, porque "é engraçado" - talvez tenha sido, por 2 segundos, 5 anos atrás. Não há um pingo de ironia em fazer uma produção visual elaborada, com maquiagem, cabelo, roupas e acessórios mil, para depois criticar mauricinhos.

O que há é vergonha. Ponto. Normalmente, coletiva. No fundo, todos gostam das mesmas coisas vergonhosas - as músicas bregas, o visual de produção meticulosa, todas aquelas coisas tão fáceis de serem criticadas -, mas escondem-se atrás da ironia, em um grande acordo tácito de negação.

Meu alerta de tema recorrente (mas coerente) está apitando, mas, novamente, como vivemos de acordo com a aprovação alheia, não? De onde vem tamanha dificuldade em assumir o que somos? De onde vem tamanha capacidade de conviver com paranóia e fingimento para vendermos um gosto fictício que agrada os nossos amigos? Por isso, a ironia é uma fuga fácil, rápida e indolor. Podemos baixar a guarda e sermos um pouco do que realmente somos.