O sexo sempre foi viral, bem antes da internet. O relato da experiência de um repetente ou a mera alusão de um cenário sexual em um filme despertavam a curiosidade de toda uma sala de aula. Em questão de instantes, revistinhas de sacanagem circulavam pela classe, histórias sexuais mirabolantes viravam lendas na escola inteira, sessões escondidas de filmes pornográficos eram realizadas no primeiro instante em que alguém da turma ficava sozinho em casa. Poucos entendiam direito o propósito de tudo isso, mas todos tinham a certeza de que seriam mais adultos quanto mais próximos estivessem desse mundo, na estranha e competitiva busca pelo reconhecimento da própria maturidade. O sexo era mais um simulacro do "ser adulto", assim como o álcool e, especialmente, o cigarro. Qual seria o ponto em esperar anos para chegar à terra prometida, com tantos atalhos à disposição?
Em um futuro próximo, a prometida irrestrição no acesso à Internet permitirá o consumo de qualquer tipo de conteúdo, em qualquer lugar, a qualquer momento, por qualquer um. Será quase impossível blindar um adolescente motivado da pornografia online. Se ele não tiver a ferramenta de acesso (celular, palm, laptop, relógio, terminais, o que mais inventarem), bastará usar a de um amigo.
Quais seriam os efeitos desse contato irrestrito com a pornografia sobre uma geração inteira de adolescentes, disposta a absorver esses símbolos como dogmas da vida adulta? Estamos falando de uma nova educação, cujos referenciais são mulheres casadas sedentas pelo pepperoni de entregadores de pizza, pessoas que gostam de ser banhadas por urina e penetrações quádruplas!
Alguns palpites:
- A profissão de entregador de pizza será glamourizada.
- Os pornstars serão os novos Jaspion ou Changemen entre os meninos, modelos de atitude que evocam sucesso
- As meninas emularão o visual das pornstars - silicones, maquiagem, cintas-ligas, roupas de enfermeira...
- O sexo será mais casual, claro. Precisar de um relacionamento formal para conseguir tirar a calcinha de alguém será coisa de idiota.
- A idade média da primeira relação sexual cairá - o acesso irrestrito e precoce a gatilhos sexuais muito mais explícitos antecipará as primeiras experiências.
- Potencialmente surgirá a mentalidade do "quanto mais bizarro, mais adulto", que convencionaria práticas hoje chocantes para muitos
- As primeiras vezes serão especialmente frustrantes devido à expectativa de prazer cósmico cultivada pela cultura pornô, salvo autosugestão
- O choque de valores entre pais e filhos aumentará, e muito - será difícil lidar com a precoce naturalidade sexual de um filho de 12 anos, certamente. Imagine descobrir que a festinha de aniversário no McDonald's terminou em uma suruba épica de rapidinhas no banheiro? E para convencer o moleque de que ele estava errado, então? O nosso maior propósito aqui não é a felicidade? Não seria o prazer um meio legítimo para a obtenção dela? Estaria ele errado em buscar a própria felicidade, contanto que tomasse as devidas precauções? Acho que, primeiro, precisaria ME convencer disso.
1.6.07
virgem maria!
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fernando araújo
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11:38 AM
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Marcadores: comportamento, futuro, internet, sexo, sociedade
9.2.07
com essa chuva toda de ontem...
... fiquei a pensar: como seria a crônica mais babaca relacionada ao assunto?
O gancho seria estúpido, claro, mas o texto ainda deveria ser pretensioso, para que os leitores do jornal, revista ou blog achassem estar consumindo alguma forma elaborada de literatura.
Como sou um homem de ação, senhoras e senhores, fui além do campo das idéias e tentei elaborar uma resposta à questão. Segue:
"Aprendi nos livros da escola que a água era o solvente universal. Tipo de conhecimento que te acompanha pela vida, arraigado e inquestionável. Como a gravidade. Mas será mesmo? Um solvente universal não deveria dissolver tudo? Ou, pelo menos, aquilo que precisaria de dissolução?
Ontem sobrou água em São Paulo, em uma daquelas tardes que ainda te deixa em pleno estado de assombro, estupefato pela onipotência da natureza. Fiel aos meus dogmas escolares, mais valiosos do que qualquer livro sagrado, aguardei pela completa decomposição das máculas paulistanas. A evaporação do efêmero golfo que tomou a cidade revelaria a dissolução completa da fome, do crime, da injustiça social, da falta de respeito ao próximo. Restava dormir.
Hoje, acordei para outro dia de imundície. Em poucos minutos de caminhada, tudo estava lá, intocado, composto: o mendigo, os motoristas fora de si, os carros importados, o lixo na rua, a desordem.
Não foi dessa vez. Nem a onipotente natureza conseguiu dar conta do recado. Apenas dissolveu o pouco de esperança que restava dentro de mim."
Sério, alguém tinha que me dar uma coluna.
6.2.07
a conveniência em ser uma enguia
Partindo de uma discussão sobre shock art, comecei a pensar sobre pessoas que vivem da capacidade de chocar, dentro e fora do contexto artístico.
Conclusões? Nenhuma. Presunções? Um bocado.
Acho que o choque é o mecanismo mais rudimentar que temos para chamar a atenção de alguém. Quando gera espaço para diferentes interpretações ou relações com o objeto, até compreendo o seu papel na arte. Mas normalmente sua repercussão é homogênea - desconforto por desconforto - e sua fundação, mirra.
(Bem, talvez uma pedrada ou um tapa na cara sejam mais rudimentares...)
O diagnóstico fica pior quando a vontade de chocar permeia as ações mais corriqueiras do dia-a-dia de uma pessoa, sem desculpas artísticas. Sinceramente, não há forma mais fácil de conseguir ser notado ou deixar uma marca - o choque pouco exige pensamento, técnica, sortilégios. Basta fazer algo fora da curva, estranho, bizarro. A transgressão de premissas sagradas na sociedade corrente, o oposto do esperado.
**E em qual ponto o choque torna-se o esperado? Porque ele já ficou enfadonho para mim. O chocante será não tentar chocar ou causar polêmica, mas ser insípido, inodoro e incolor. Vou começar a ouvir somente muzak e vestir-me de Brick Tamland.**
Mas como você conseguiria tanta atenção, afinal? Não é brilhante, tampouco belo. Melhor recorrer aos seus recursos de fábrica. Como um peru que acena suas penas. Fazemos coisas para chocar nossos pais desde bebês. Foi a mais simples dedução que te ensinou sobre o poder de comoção do choro, do grito ou da autoflagelação. Perder tempo para quê? Estamos aqui para receber atenção, certo? Sejamos enguias, distribuindo choques quando próximos a outrem. Não temos penas majestosas ou presas afiadas. Não somos os melhores nadadores e nem conseguimos sair da água, muito menos voar. Sejamos enguias porque simplesmente é o que nos resta.
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fernando araújo
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6:55 PM
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Marcadores: arte, comportamento, shock art, sociedade
23.1.07
your world. sorry about that.

Achei genial essa página-sátira do Second Life.. O nome do jogo em questão é Get a First Life, inspirado pela clássica expressão em inglês, get a life, recado básico para gente sem ter coisa melhor para fazer.
Dentre os features oferecidos ao jogador, constam:
- A possibilidade de fornicar com os próprios genitais;
- A elaboração do visual do seu personagem "Get a First Life" utilizando as roupas do seu armário;
- Um sistema de busca para encontrar o local real onde você mora.
Tudo isso e muito mais, em um mundo 3D e sem lags!
Por isso que sempre exalto a eficiência da ironia como meio de passar uma mensagem. Ainda bem que existem mais pessoas tão incomodadas com o Second Life quanto eu, e bem mais capazes de darem um recado efetivamente.
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fernando araújo
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2:24 PM
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Marcadores: cultura pop, get a first life, internet, second life, sociedade, tecnologia
16.1.07
desvio-padrão

Alguém aí já viu The Burg? Havia lido sobre, mas nunca tinha parado para assisti-lo. Hoje, 5 meses depois, criei vergonha na cara e vi o primeiro episódio, The Cred. Achei bem bom.
Para quem não conhece, The Burg é um sitcom feito somente para a Internet, que retrata a vida de 5 amigos no bairro de Williamsburg, reduto trendsetter de NY e lar de gente indie, alternativa e muderna, com camisetas de brechó, gosto por bandas obscuras e constante preocupação com a opinião dos outros.
O episódio que vi é irônico até o fim e tira sarro do modus operandi dessa cena. Sim, a descrição soa clichê, mas o sitcom é especial porque é uma sátira apaixonada feita por gente que pertence à cena e ama tudo o que ela tem a oferecer, sem no entanto perder a capacidade de olhar no espelho e rir de si.
*Por sinal, minha admiração por pessoas capazes de tirar sarro de si próprias aumenta a cada dia, mas isso é conversa para outro momento.*
Como são estranhos os dias de hoje, não? Basta uma câmera, alguns amigos, um domínio e uma boa idéia para conseguir criar um fragmento de relevância cultural para alguém do outro lado do oceano - sem intermédio de grandes grupos de comunicação, presença de grandes marcas e casting de atores/modelos ou bandas major. Não importa quão nichada, barata ou extravagante seja a produção, sempre existirá alguém do outro disposto a apreciá-la.
Para mim, essa nova realidade não representa alguma mudança comportamental da audiência: a semente da excentricidade sempre esteve presente em nós. O fato é que ela nunca brotou devido à falta de escolha decorrente da mídia em massa.
Com a possibilidade de divulgação/transmissão de conteúdo na Internet, acho que as pessoas tornar-se-ão mais excêntricas. Poderão ver de tudo, quando quiserem, para então definirem as coisas específicas das quais gostam, e aprofundarem-se nelas. Dá até para enxergar o dia em que o excêntrico será o centro; a pessoa normal, a esquisita.
Dá para vislumbrar também o crescimento da cultura de turmas, tribos (argh) e cenas. O advento da oferta total de cultura na Internet ironicamente restringirá a cabeça das pessoas. Todos serão especialistas culturais, fanáticos por seus próprios nichos e sociáveis apenas àqueles com os quais compartilham gostos. Julgarão que conhecer outros assuntos ou pessoas será perda de tempo. Isso dá medo. Imagina lidar com uma sociedade ainda mais calcada em radicalismos, idéias fixas e irracionalidades? Cruzes.
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fernando araújo
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1:41 PM
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Marcadores: cultura pop, indie, internet, sitcom, sociedade, the burg, user-generated content
11.1.07
lamarckismo
Quando essa cambada de jornalistas preguiçosos parará de hypar o lixo do Second Life? Será que ninguém percebe que se trata de UM MALDITO CHAT?!? São as mesmas mentiras, as mesmas tentativas frustradas de ser quem você não é, a mesma falta do que fazer, a mesma covardia de encarar o mundo real à sua volta, mas ainda com um agravante: CUSTA DINHEIRO.
Chat do UOL / IRC = coisa de nerd.
Second Life? Ah, coisa avant-garde, para trendsetters, donos de uma nova linguagem, encantados pelo advento de uma vida virtual paralela à real. Gente à frente da curva.
Potencialmente, nossa geração vindoura será de idiotas, atrofiados, paranóicos. Gente sem iniciativa, incapaz de pôr a mão na massa ou até mesmo de reproduzir-se. Gente sem capacidade de agir em um mundo físico que deixaria de importar.
Sorte a nossa que ainda existem pessoas para enterrar cabeças dos nerds na privada. Louvados sejam os jocks/bullies, guerrilheiros dispostos a impedir o potencial estabelecimento dessa realidade alternativa como status quo. Enquanto eles existirem, estaremos a salvo.
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fernando araújo
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Marcadores: cultura pop, internet, second life, sociedade
