Float, de Marie E.V.B. Gibbons
Adivinha quem devia ser a melhor aluna de educação artística na escola.
31.8.07
criatividade com argila
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fernando araújo
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Marcadores: arte, cerâmica, marie evb gibbons
1.8.07
cristalização
Ando em busca de um pouco de euforia. Por que ela se esconde tanto, hoje em dia? Na infância, estava sempre lá, pronta para emergir à primeira chance - chutando uma lata, correndo com o cachorro, fazendo uma barraca de cobertores na sala, subindo em uma árvore. Bastavam movimentos bruscos do corpo, desafios às regras e besteiras ditas.
Na adolescência, a euforia afunilou-se um pouco, escorrendo para a descoberta da música própria, que fazia sentido para você e mais ninguém, e as primeiros experiências com garotas, claro. A música era uma satisfação artística, a identificação de si próprio na obra de estranhos; com as garotas, a satisfação era fisiológica mesmo, uma solução à angústia do próprio corpo. Como ambas as novidades era vividas de forma intensa, implacável! O coração palpitava, forte, alimentando um cérebro que não largava o osso - o mesmo disco era ouvido por um ano, todas as noites, com encarte na mão; qualquer forma de contato na curva de relacionamento com uma garota, do primeiro "oi" ao primeiro beijo, era o ápice do dia.
Imagino que cada um tenha o próprio pretexto para a euforia. Olhando para trás, percebo que os meus momentos eufóricos eram descobertas sensoriais, bens que se rarefazem no decorrer dos anos, quando o mundo, as pessoas, o próprio corpo e a personalidade tornam-se velhos conhecidos. Tudo é colocado em gavetas, tudo é preconcepção, tudo é reação. Como seria possível encontrar essa descoberta sensorial, hoje, na vida que levo?
A arte ainda me proporciona descobertas sensoriais, mas de forma cada vez mais escassa. Muitos entretanto conseguem extrair muito dela, quase como se por oxigenação. Parecem-me seres iluminados, em consonância com outra frequência à minha - se não sinto isso de forma natural, que pelo menos me esforce em dobro!
Existem também as drogas: não as consumo, mas parece que elas dão conta do recado para quem o faz. Parando para pensar, são atalhos de um mesmo processo, pois mudam a percepção das coisas e, por consequência, geram picos de euforia, sem a angústia dessa procura infrutífera e existencial por momentos reais que inspirem o mesmo estado. Uma euforia Nissin Miojo, instantânea, embalada e encontrada no mercado - basta adicionar água.
Verei uns filmes do Bergman no final de semana para ver se me inspiro a perseguir mais a arte e ser um pouco menos cínico; caso os planos dêem errado, fumo crack.
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fernando araújo
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Marcadores: arte, drogas, euforia, existência, ingmar bergman
11.5.07
um lembrete para o não-enlouquecimento

"Whether we like it or not, we are all bound to the earth with our experience of life and the reactions of the mind, heart, and eye, and our sensations, by no means, consist entirely of form, color, and design."
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fernando araújo
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Marcadores: arte, citações, edward hopper
6.2.07
a conveniência em ser uma enguia
Partindo de uma discussão sobre shock art, comecei a pensar sobre pessoas que vivem da capacidade de chocar, dentro e fora do contexto artístico.
Conclusões? Nenhuma. Presunções? Um bocado.
Acho que o choque é o mecanismo mais rudimentar que temos para chamar a atenção de alguém. Quando gera espaço para diferentes interpretações ou relações com o objeto, até compreendo o seu papel na arte. Mas normalmente sua repercussão é homogênea - desconforto por desconforto - e sua fundação, mirra.
(Bem, talvez uma pedrada ou um tapa na cara sejam mais rudimentares...)
O diagnóstico fica pior quando a vontade de chocar permeia as ações mais corriqueiras do dia-a-dia de uma pessoa, sem desculpas artísticas. Sinceramente, não há forma mais fácil de conseguir ser notado ou deixar uma marca - o choque pouco exige pensamento, técnica, sortilégios. Basta fazer algo fora da curva, estranho, bizarro. A transgressão de premissas sagradas na sociedade corrente, o oposto do esperado.
**E em qual ponto o choque torna-se o esperado? Porque ele já ficou enfadonho para mim. O chocante será não tentar chocar ou causar polêmica, mas ser insípido, inodoro e incolor. Vou começar a ouvir somente muzak e vestir-me de Brick Tamland.**
Mas como você conseguiria tanta atenção, afinal? Não é brilhante, tampouco belo. Melhor recorrer aos seus recursos de fábrica. Como um peru que acena suas penas. Fazemos coisas para chocar nossos pais desde bebês. Foi a mais simples dedução que te ensinou sobre o poder de comoção do choro, do grito ou da autoflagelação. Perder tempo para quê? Estamos aqui para receber atenção, certo? Sejamos enguias, distribuindo choques quando próximos a outrem. Não temos penas majestosas ou presas afiadas. Não somos os melhores nadadores e nem conseguimos sair da água, muito menos voar. Sejamos enguias porque simplesmente é o que nos resta.
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fernando araújo
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Marcadores: arte, comportamento, shock art, sociedade
10.1.07
falou e disse
"Those works created from solitude and from pure and authentic creative impulses - where the worries of competition, acclaim and social promotion do not interfere - are, because of these very facts, more precious than the productions of professions. After a certain familiarity with these flourishings of an exalted feverishness, lived so fully and so intensely by their authors, we cannot avoid the feeling that in relation to these works, cultural art in its entirety appears to be the game of a futile society, a fallacious parade."
Jean Dubuffet
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fernando araújo
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