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30.8.07

desilusão

Queria muito ler The God Delusion, do Richard Dawkins. Cheguei a cogitar comprá-lo em inglês, na Amazon. Mas a vontade arrefeceu quando recebi um e-mail da Saraiva, anunciando, com destaque, a chegada da edição nacional. Sério? Richard Dawkins merecendo mailing especial da Saraiva?

Entendi a atenção especial quando abri a mensagem: trata-se de um livro polêmico. Ponto. Aí está o seu grande selling point. As pessoas não se interessam muito pelo autor e seus argumentos: o que importa é que The God Delusion causa. "Cara, estou lendo um livro de um sujeito que diz que Deus não existe! Muito lôco!"

Desde quando ser polêmico é mérito?

26.5.07

meet the writers: anton chekov


A Barnes & Noble, maior rede de livrarias dos EUA, é conhecida por promover eventos chamados Meet the Writers, nos quais escritores lêem trechos de suas obras e respondem às perguntas dos seus fãs. Prato cheio para pseudointelectuais babacas - daqueles que adoram mencionar autores em conversa, sem terem lido os livros - baterem o ponto e compilarem assunto suficiente para impressionar os ainda mais leigos (porém menos pretensiosos) ao seu redor.

Pois bem: um grupo de "produtores independentes" resolveu homenagear os 100 anos da morte de Anton Chekov com uma seção especial de Meet the Writers... Com o autor russo em pessoa... Dentro de uma Barnes & Noble... Com direito a leitura de trechos de seus livros, em russo...


... E uma banquinha na qual o próprio vendia seus próprios livros, autografados, por dois dólares cada, montada após o evento.


Genial.

16.5.07

contrato velado

"PROCURA-SE: ESCRAVA BRANCA

Mulher jovem, muito bonita, interessada em obter moradia, conforto e favores sexuais em troca de presença permanente em casa e favores sexuais irrestritos. Magra, levemente fornida, e com uma excelente coluna vertebral. Nível cultural mediano ou elevado. Dotes culinários e musicais serão altamente apreciados. Período de avaliação de 6 meses, possível estendimento para contrato permanente. Interessadas mandar e-mail com foto e descrição pessoal para..."


Trecho de Escrava Branca, conto do livro Dentes Guardados, de Daniel Galera

2.2.07

bratwurst

O Senhor dos Anéis é um livro grande. Um cartapácio, deveras. Quantas são as páginas, uma mil e poucas?

O tal Tolkien devia ter muita história para contar mesmo - quase no nível de um assistente pessoal do Michael Jackson, após 25 anos de convivência com o artista do milênio, na Terra do Nunca. Não dá para deduzir outra coisa quando analisamos sua obra e vemos o festival de romances de duas resmas.

Mas a superfície de contador de história compulsivo, desesperado por vazão dos inúmeros contos que habitavam sua mente, não procede. Tolkien era um grande trapaceiro, enchedor profissional de bratwurst.

A evidência que tive: O Senhor dos Anéis. Não passa de longo, longo, longo e pretensioso livro de aventuras gastronômicas por vinículas francesas. Ruim, ainda por cima. O narrador arregimenta um sem-número de adjetivos esdrúxulos para descrever comida e paisagens, e deixa o enredo em segundo plano. A tal variedade de adjetivos não denota riqueza na narrativa - trata-se apenas de um recurso estético para descrever os mesmos seis atributos, sem repetir palavras. Isso para não falar do péssimo final que não acaba.

Poucas páginas bastaram para compreender que as montanhas eram imponentes, homéricas e altaneiras; o vento, gelado, cortante e impiedoso; as lembas, deliciosas, nutritivas e preciosas - o que vinha ao caso, já que, TODA MALDITA NOITE, os hobbits comiam porções ralas, escassas e miúdas, sem no entanto perderem as esperanças, pois sonhavam, TODA MALDITA NOITE, com mesas fartas, opulentas e nababescas, cheias de pratos saborosos, suculentos e deleitosos, descritos de forma barroca, rebuscada e pormenorizada.

Mil páginas do parágrafo acima alçaram O Senhor dos Anéis aos títulos de livro mais amado da Grã-Bretanha de todos os tempos e de um dos 100 melhores romances da língua inglesa dos últimos 84 anos. Nada mal para uma história que precisaria de 150 páginas, com detalhes.

Mas por que tamanha enrolação?

Para mim, Tolkien queria fazer volume e impressionar com o tamanho do livro, para que as pessoas acreditassem que se tratava de um épico.Bratwurst. Parece que deu certo.

E desde quando ser épico é uma virtude?!?

Triste pensar que o tempo dispendido nesse embuste de literatura gastronômica não volta mais. Pior então pensar que fui, masoquista, até o final, como uma mariposa que bate sua cabeça contra a lâmpada uma, duas, cem, mil vezes, até a morte anunciada.