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20.8.07

elite branca

Alguém já ouviu The Forms? A banda é boa e tem um ótimo disco, "Icarus", produzido por Steve Albini, lendário produtor, músico e jogador de pôquer.

Aqui, dois membros do grupo, os gêmeos Jackson e Brendan, prestam tributo ao programa que azeitou sua adolescência, Beverly Hills 90210, vulgo Barrados no Baile. Notem a técnica dos rapazes.



Ah, as lembranças logo vêm à tona: as costeletas, os topetes, os adolescentes de trinta e poucos anos, as cenas ridículas de ação, os serviços públicos sobre drogas, gravidez na adolescência, câncer de mama, violência doméstica e vício em jogatina.

O drama sofrido pelos personagens do seriado fazia a vida da Helen Keller parecer a do Jorginho Guinle. Como alguém pode ter a coragem de dizer que a elite branca não sofre? Vejam pelo que esses jovens bem-nascidos tiveram que passar:

David - o pior músico e diretor de vídeos de todos os tempos, virou depressivo e acabou por buscar inspiração no crack;
Steve - o atleta babaca, com suas calças brancas, o afro loiro e o uso de esteróides;
Valerie - a sociopata da paróquia, era mentirosa patológica, drogada e assassina do próprio pai. A personagem foi criada para substituir o papel da Brenda, interpretada pela Shannen Doherty, mala sem alça afastada pelos produtores do programa devido ao seu complexo de diva;
Kelly - a moça mais azarada da história: foi estuprada - e assassinou o estuprador -, sofreu lavagem cerebral e entrou em um culto, virou alcoólatra, ficou viciada em cocaína e também em pílulas para emagrecimento, sofreu queimaduras sérias durante um incêndio em uma festa rave, abortou, levou um tiro em um assalto, foi assediada por seu patrão e virou refém de sua roommate na universidade.

Bons tempos.

14.2.07

zeitgeist

Nesse último domingo, vi uma boa parte do Fantástico. Os destaques foram os seguintes:

1) Um bloco de longos minutos consistiu em levar o garoto atacado pela sucuri (e seu avô) para o Instituto Butantã. Esse foi o gancho mais ridículo que já vi para uma matéria. Foi hilário ver o cara do instituto explicando para os dois que a sucuri não se alimenta de humanos, mas que aquela especificamente tinha atacado o moleque porque estava com fome (?!?)

2) Contaram aquela história incrível da astronauta traída, mas acharam que o foco da matéria deveria ser o seguinte:

"É claro que essa história traz uma pergunta à mente de todos: dá para fazer sexo no espaço?"

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH!

O pior é que ainda colocaram o Marcos Pontes para responder à pergunta.

3) Uma matéria seguinte a uma entrevista com a mãe do João Hélio, que basicamente tentou culpar a elite - que sempre ignora os mais necessitados - pela animalidade dos assassinos. Falar que a injustiça social é o comburente do círculo vicioso do crime é bom senso; usar esse argumento para redimir o indivíduo pela crueldade de sua ação, como se ele não possuísse qualquer tipo de julgamento ou fosse um ladrão de padaria, é absurdo. Quase chutei a TV.

Essas são as manchetes da minha revista eletrônica semanal. Retrato claro do que interessa o brasileiro comum, corpo parasita da Rede Globo.

Quando vou procurar entender o que interessa uma audiência supostamente mais "qualificada", com acesso a internet e interesse diário em notícias - os leitores da Folha Online -, vejo entre as 5 notícias mais lidas do site uma coluna zapping, um crime digno de Notícias Populares e algo referente ao escândalo da semana na internet. Sempre.

Não noto distanciamento entre os dois públicos. Todos querem o factual. Assim fica mais fácil para começar uma conversa no bebedouro do trabalho.

Cada um tem seus gostos: música, filmes, religião, etc. Os fatos, entretanto, são compartilhados por todos - nosso mundo, por incrível que pareça, é um só. A utópica pauta comum, universal, capaz de suplantar crenças, valores e etnias, é muito mais simples do que argumentos mirabolantes de livros de auto-ajuda voltados à socialização.

Já que cansei de parecer um lunático, vou sempre soltar um "E o Lula, hein?" em meio a uma roda de pessoas e ver a mágica acontecer. Iniciarei a argumentação e depois balbuciarei palavras que jamais me derrubem de cima do muro. Sem polemizar ou me comprometer pela minha ignorância e total ausência de senso crítico, serei amigo de todos. Não é isso que todo mundo quer?

17.1.07

fernando vanucci fazendo escola

Paula Abdul: namoradinha dos EUA, jurada boazinha do American Idol, ex-cheerleader dos Dallas Cowboys e cantora de clássicos como Straight Up e Rush, Rush. Uma reputação na mídia que levou 25 anos para ser construída. E apenas 2 minutos para ir por ralo abaixo.



E o que seria um bafafá restrito à região de Seattle, tornou-se um fenômeno mundial de mídia. Tem coisas que só o YouTube faz para você.

Por sinal, não sei o que ela e o Vanucci tomaram para ficarem desse jeito, mas o negócio parece forte. Para chegar na manhã nesse estado, tem que ter muita pólvora nesse rojão.

4.12.06

don't bore us - get to the chorus!

Gosto de pensar sobre como foi o processo de composição e gravação de alguns dos meus discos favoritos. Loveless, Daydream Nation, Crooked Rain, Crooked Rain... Grandes álbuns, prováveis grandes histórias.

O que há por trás de toda essa genialidade enclausurada em plástico? Quem foi decisivo no rumo que cada música tomou? De onde veio a inspiração para a composição das faixas? Quem deu mais chiliques? Quem Kubrickou, peitou a gravadora e exigiu o final cut do disco?

A idéia de ter esse conhecimento, entretanto, torna-se muito mais atraente quando penso sobre discos nem tão geniais assim.

O pop deslavado, formuláico e radiofônico deve saber rir de si próprio. Tenho o mais absoluto respeito por artistas cientes disso. Eles são poucos, ante os muitos que tratam sua música como obra-de-arte e discutem conteúdo e significado, para depois tirarem fotos sexy(ies), cheias de caras e bocas, para o encarte do CD, a revista de fofoca, o perfil do myspace.

Você já viu essa história antes: boybands dizem que amadureceram, cantoras teen juram que ajudaram na composição de suas novas músicas e bandas de pop-rock citam influências nebulosas para um novo disco, idêntico ao anterior.

Acompanhar a comédia não-intencional dessa gente se levando a sério seria puro ouro televisivo - imaginem um programa que exibisse um sujeito pretensioso como o Lenny Kravitz, compondo e defendendo ideologicamente Fly Away. Vocês sabem, aquela música cujo refrão pontua:

"I want to get away
I wanna fly away
Yeah
Yeah
Yeah

I want to get away
I wanna fly away
Yeah
Yeah
Yeah
Oh yeah"

Um documentário disso, comandado por um entrevistador bem cínico, seria mágico. Imaginem as possibilidades:

Entrevistador: "Ah, essa música é sobre o eterno desejo humano por fuga, né, Lenny?"
Lenny: "Sim, claro, essa vida é muito dura e, às vezes, sentimos vontade de esquecer os problemas e mandar tudo pelos ares."
Entrevistador: "Por isso que você se droga tanto."
(silêncio constrangedor)